
O eixo do gráfico da Carta é específico: percentual de grants já vested que retornaram ao pool por não terem sido exercidos antes de expirar. No fundo, é a fatia de gente que, nos 90 dias após sair da empresa, abriu mão da própria equity.
A tendência é consistente e antiga. No 4º trimestre de 2024, colaboradores exerceram apenas 32,2% das opções vested e in-the-money — contra 54,2% três anos antes (Carta). Em 2022, 46,1% das opções in-the-money expiraram sem exercício (Carta).
Ou seja: mesmo quando a opção vale a pena no papel, metade das pessoas não puxa o gatilho.
Por que a equity evapora (isso é universal) 🪐
A Carta pesquisou o porquê, e as razões atravessam fronteiras:
Falta de caixa. Exercer custa dinheiro — o strike price sai do seu bolso, hoje, por uma ação que você não pode vender.
Desconhecimento. Mais de um quarto dos colaboradores só pensa nas opções quando já está saindo. 63% dizem não saber como reduzir a conta de imposto da equity e 49% não sabem qual o melhor momento de exercer ou vender (Carta).
Descrença. Muita gente acha que a opção não vai valer nada — e, num jogo de power law, na maioria das vezes está certa.
Iliquidez. Mesmo acreditando no upside, o colaborador não vê caminho para transformar aquilo em dinheiro antes de um IPO ou M&A que pode nunca chegar.
A boa notícia brasileira: o exercício ficou mais leve 🏋🏻
Aqui está a parte que muda a nosso favor.
Nos EUA, um dos travamentos é o imposto: exercer pode disparar tributação sobre o spread entre strike e valor de mercado, mesmo sem você ter vendido nada. É dinheiro saindo por um ganho que ainda é só de papel.
No Brasil, depois do julgamento do Tema 1226 pelo STJ (REsp 2.069.644 e 2.074.564, set/2024), o cenário melhorou. O STJ definiu que o stock option plan tem natureza mercantil, não remuneratória — desde que haja voluntariedade, onerosidade e risco para o beneficiário (STJ, PwC).
A consequência prática: não há IRPF na outorga nem no exercício. O imposto só incide na revenda das ações, como ganho de capital, nas alíquotas progressivas de 15% a 22,5% (Machado Meyer). Traduzindo: aquele travamento fiscal que congela o colaborador americano no exercício, aqui, é menor.
O vilão que continua: a janela de 90 dias 🪟
Mas tem um "porém" grande — dois, na verdade.
A condição. O alívio do Tema 1226 só vale se o plano for genuinamente mercantil. Planos gratuitos, sem onerosidade real ou sem exposição a risco, podem ser reclassificados como remuneração — e aí o exercício volta a ser tributado como salário, com IRPF e risco de INSS. Um plano mal desenhado recria exatamente a surpresa fiscal americana.
A estrutura. A janela de exercício pós-saída no Brasil ainda é, na maioria dos casos, de 30 a 90 dias — herança direta da regra de ISO americana, copiada sem tradução (Basement). E é ela que faz a equity evaporar.
Pense no que a janela curta obriga: decidir em 90 dias, tirar o strike do bolso, comprar ações ilíquidas que você não pode vender para financiar a própria compra. Sem caixa e sem liquidez, a escolha individual racional vira "desisto" — e é isso que o gráfico da Carta mostra, em escala.
Um exemplo para fixar 📌
Imagine (números ilustrativos): você tem 50.000 opções, strike de R$1,00. Exercer custa R$50 mil. O valor de mercado da ação está em R$4,00 — logo, R$200 mil no papel, R$150 mil de ganho potencial.
Você sai da empresa. Relógio: 90 dias. Pós-Tema 1226, se o plano for mercantil, exercer não gera imposto — o tributo só viria na venda futura. Mas você não tem R$50 mil sobrando, não pode vender as ações para cobrir o custo, e não sabe se a empresa terá liquidez algum dia.
Resultado provável: a opção volta para o pool. Você abre mão de R$150 mil. Multiplique isso por 70% da base — é a foto do gráfico.
Na prática 📑
Se você é colaborador:
Descubra sua janela hoje, não na saída. Se ela é de 90 dias, planeje o caixa com antecedência.
Cheque se o seu plano é mercantil (voluntariedade, onerosidade, risco). É isso que decide se o exercício é livre de imposto ou tributado como salário.
Lembre: opção não exercida na janela volta para o pool. É um direito com prazo de validade.
Se você é founder ou CFO:
Aquela janela de 90 dias que você copiou dos EUA está fazendo evaporar a equity que você pagou caro para dar (e reconheceu via CPC-10). Janelas estendidas — contadas em anos, não meses — já estão sendo discutidas (Migalhas).
Desenhe o plano para ser mercantil de verdade. É o que protege o benefício sob o Tema 1226 — e o Marco Legal das Stock Options (PL 2724/2022), aprovado no Senado e em tramitação na Câmara, tende a consolidar essa lógica (Basement).
Equity que volta para o pool é retenção que você já perdeu. Comunicação clara e um caminho de liquidez valem mais que um número bonito na proposta.
É aqui que a stock.cash entra
Janela, mercantilidade do plano, caixa para exercer, caminho de liquidez: essas quatro peças decidem se a equity que você distribui vira riqueza ou vira pó.
A stock.cash ajuda founders e CFOs a desenharem planos que sobrevivem ao Tema 1226, modelarem janelas que retêm talento, e estruturarem secundárias e recompras que dão liquidez real ao time — antes do IPO que pode demorar.
👉 Quer revisar se o seu plano de stock options está protegido e se a sua janela está trabalhando a favor (e não contra) a retenção? Vamos conversar.
E você: na sua empresa, qual é a janela de exercício depois que o colaborador sai — 90 dias, ou algo mais humano? Conta nos comentários.